O Novo Homem

"Não tenho medo da morte. Antes tenho medo da minha mente"

sábado, dezembro 31, 2005

Lições da Feira Popular

Vim passar três dias a Lisboa. Vim porque isto a vida quer é andamento. E, além disso, a vista da minha janela entedia-me, a laranjeira do meu quintal não dá outra coisa senão laranjas e até o meu sofá e a minha televisão me fazem adormecer. Vim também porque o meu Ser começava a sentir-se preso... preso atrás das grades da pasmaceira e da estabilidade que, quando eu era mais novo, me ensinaram ser o melhor para mim. Mas agora... já tenho idade para perceber que nem tudo o que nos ensinam é oiro, e por isso, tomei as rédeas da minha própria vida e agora aqui estou, em Lisboa.

Cheguei esta manhã a Santa Apolónia, ainda os pombos que povoam aquela região não tinham acordado para mais um dia de tarefas estimulantes como o “onde-é-que-anda-a-velha-que-me-dá-milho-todos-os-dias?”. Caminhando, passei no Cais do Sodré e, recordando tempos da faculdade, mais uma vez me perguntei “mas quem é este Sodré?”. Depois, subi até ao Bairro Alto, desci aos Restauradores (olha, agora é a Loja do Cidadão!) e, seguindo os cheiros, os ruídos e o instinto, dou agora comigo sentado em frente ao que até há bem pouco tempo foi a Feira Popular.

Neste recinto agora com ar de quem espera o nascimento de muitos metros de betão me lembro eu de ter comido a minha primeira fartura (upa, upa... não há fartura como a primeira, já dizia o poeta). Lembro-me também dos póneis – que vida entediante deviam ter aqueles póneis – e do medo que tive quando montei um deles pela primeira vez (upa, upa... não há pónei como o primeiro, já dizia o poeta). Agora imaginem o medo que não teve o D. João I a subir para o cavalo que está na Praça da Figueira. Ah pois, nestas coisas ninguém pensa, não é? Assim como ninguém sequer imagina a tristeza que me invadiu quando aquele belíssimo balão cheio de hélio – talvez o mais bonito alguma vez vendido neste velho recinto – se escapou das minhas mãos e me obrigou a dizer-lhe adeus por mais de 3 horas, até se eclipsar já na estratosfera. Claro está que no dia seguinte não me levantei da cama com dores no pescoço... Mas eu acredito que o tal balão ainda há-de voltar um dia (afinal, se o D.Sebastião ainda há-de vir porque raio o meu balão não há-de descer do céu? – upa, upa... tudo o que sobe tem de descer... já dizia o poeta)! Lembro-me também da zona dos restaurantes (upa, upa... belas borgas se fazem nos restaurantes da Feira Popular, já dizia o poeta), onde os pais olhavam as ementas pensando fastidiosamente se haveriam de comer febras na brasa ou febras no carvão e os filhos, como que mostrando o verdadeiro sentido da vida, miravam a pista dos carrinhos de choque que dali se podia avistar ao longe. E os avós? Ora os avós... esses olhavam simplesmente o infinito, tal como se aguardassem o tal balão que um dia também lhes havia fugido da mão.

E foi correndo através destas memórias que me lembrei de uma cena que ali se passou e que, por alguma razão, nunca me saiu da cabeça. Um miúdo, com uns 8 aninhos, passava à minha frente em veloz correria até tropeçar nos próprios pés e ficar, estatelado no chão, a chorar. Chamava-se Pedro (soube-o poucos minutos depois) e corria para ir apanhar a girafa que, segundo o próprio, o esperava há já algum tempo... Entretanto, a voz daquela que vim a saber depois, era sua mãe, soou – mesmo antes do seu vulto aparecer no virar da esquina: “Peeeedroo! Eu não te avisei para não corrrereeees? Quando um dia fores parar ao hospital é que me «há-des» dar razão!” O Pedro, quase imediatamente, parou de chorar, não porque o susto tivesse passado mas porque um susto maior – a própria mãe - tinha aparecido. Levantou-se, deu a mão à mãe e ao passarem por mim tomei a iniciativa de lhe piscar o olho! (upa, upa... e olha pr’a direita e pisca pisca, já dizia a Ruth Marlene). Não, não foi à mãe – que não era desinteressante de todo - que eu pisquei o olho, foi ao Pedro. O Pedro, primeiro desconfiado e depois sorridente lá continuou a sua dura vida de resistência perante os ataques à sua criatividade. É um lugar comum, mas acho que as crianças tinham tanto a ensinar aos adultos... E uma das primeiras lições teria, com certeza, de ser: Aprenda a viver no presente.

Agora que aqui estou, simplesmente a contemplar o que em tempos foi a Feira Popular (belo verso!!), vêm-me à lembrança dezenas de situações em que dou por mim preocupado com isto e com aquilo, ora é o exame que está por vir, ora alguém que não quero perder, ora o frio que se prevê para logo à noite, ora o cancro da tiróide que anda aí (eles andem aí, já dizia o poeta)... quando, na verdade, pouco Me (não, este M maiúsculo não é engano do editor) interessam tais assuntos. É apenas aqui e agora que eu posso transformar o meu mundo. É hoje e agora que tenho o poder de decidir telefonar àquele amigo de quem não sei nada há 2 anos (porque o último a telefonar fui eu!!), é hoje e agora que posso entrar naquele café e dizer à empregada “tão gira que você é”, é hoje e agora que posso subir ao Castelo e perguntar ao Cristo-rei “mas porque raio tás tu de braços abertos e nunca vi ninguém a abraçar-te?”, é hoje e agora que posso dizer “amo-te” às pessoas que amo do fundo do coração e é também hoje e agora que posso sorrir por ter a oportunidade de estar aqui.

Não quero fazer como os avós da Feira Popular que hoje e agora, não fazem mais do que esperar pelo tal balão de lhes fugiu das mãos há 40 ou 50 anos. Esse balão não vai voltar... nunca há-de voltar. Desde então, muita água passou pelo Ganges (esta é que foi mesmo dita pelo poeta...) e a vida continuou, a vida mudou, cada um de nós teve a grande oportunidade de viver. E o que fez a maioria? O que foi? Teve medo que mais balões lhes fugissem das mãos e agarraram-se a eles – “Antes mal, nunca pior”, dizem!
Meu Deus, eu não quero ter medo! Não quero saber do que passou. Não quero saber do que se vai passar. Cada dia é uma oportunidade única que nunca mais se volta a ter.

E afinal, qual é o verbo escondido na palavra VIDA? Viver... ou morrer?