O Novo Homem

"Não tenho medo da morte. Antes tenho medo da minha mente"

terça-feira, março 14, 2006

Foi com o passe na mão que entrei, ontem à tarde, no 23. Eu gosto do 23. No 23, nenhuma viagem é igual à outra e essa deve ser a razão pela qual a Isabel Alçada e a Ana Maria Magalhães nunca fizeram um livro “Uma Aventura no Autocarro”!

Quando ainda estava na paragem passou o 49, depois o 54, depois o 18, o 12!... E veio outro 18, outro 54... A experiência de andar de autocarros da Carris ensinou-me que o autocarro que queremos só vem quando começo a pensar que o motorista está em greve. Revi na minha cabeça o telejornal de ontem a àparte do “Souselas a concelho”, não me lembro de mais nenhuma manifestação! Queres tu ver que o motorista é de Souselas, pensei com os meus botões. E nesse mesmo instanto, eis que o 23 aparece no horizonte!

Apressadamente, tirei o passe da carteira. Subi os degraus, mostrei o passe e disse o habitual “boa tarde”. O motorista olhou para mim... mas não respondeu! Mais um que concerteza anda à procura de si próprio. Mas pronto, havia lugar sentado! E isso já é motivo de satisfação. Na paragem seguinte entra a minha colega de banco! Uma senhora com o cabelo em tons violeta e um xaile tipo cachecol do boavista. Não pude deixar de lhe sorrir... 2 paragens mais à frente entrou outra senhora, de bengala na mão. Olhei à minha volta e a má notícia tornou-se óbvia: tens de te levantar! Já não havia mais lugares sentados e, teria de fazer o resto da viagem em pé a segurar num poste de metal. Instantes depois... uoooouuuuu... arrancámos! Ao meu lado, a senhora da bengala começou uma conversa original:
- Hoje está um frio que não se pode... Isto para os MEUS ossos não é nada bom!

E responde a do cachecol:
- Não me diga nada! A MIM é a cabeça... ando com umas tonturas que fico desnorteada! Um dia destes caio e não me levanto!

A resposta não tardou:
- Ai... não diga isso... quem não se levanta sou EU, com estas dores que tenho nas pernas. Ainda na semana passada fui ao Sr Dr. Estou muito mal... Isto já nada ME põe boa!

Volta a dizer a do cachecol:
- EU já não vou mais ao médico... da última vez que fui, por causa destas dores de cabeça, paguei 10 contos para nem 5 minutos lá estar... EU? Nunca mais...

A do bengala fez então um pequeno silêncio! Silêncio que durou o tempo suficiente para reparar que em volta também se fez silêncio... estaria um autocarro inteiro a ouvir esta conversa? Mas nisto... recomeça a conversa:
- Olhe, da última vez que EU fui ao médico ele disse-ME que o que eu tinha de fazer era beber muita água... Ora, para ME dizer uma coisa destas mais vale não ir lá... água já a minha mãe me mandava beber...

E continua a sra do cachecol:
- EU?! EU já pensei em ir para a ginástica... mas não sei...

E passadas duas meias dúzias de travagens e solavancos... cheguei ao meu destino! Tinha sobrevivido a mais uma voltinha nos autocarros da Carris... e desta vez, ganhei também uma pergunta para o resto do dia... afinal, porque razão nascemos com duas orelhas e uma boca?